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Filhos
Conte histórias para promover identificações e fortalecer valores
"Ele está sonhando agora", disse Tweedledee. "E com que você pensa que ele está sonhando?"
"Ninguém pode adivinhar uma coisa dessas", observou Alice.
"Ora, ora, é com você!", exclamou Tweedledee, batendo palmas, triunfantemente. "E se ele deixasse de sonhar com você, onde é que você acha que estaria?"
"Aqui, no mesmo lugar, é claro", disse Alice.
"Nada disso!", replicou Tweedledee com desdém. "Você não estaria em lugar nenhum. Pois você é apenas uma espécie de imagem no sonho dele!" "Se o Rei acordasse", acrescentou Tweedledum, "você se apagaria ? puff! - como a chama de uma vela!"
Lewis Carrol - Alice no País das Maravilhas
O trecho acima nos coloca a refletir sobre as instâncias do real dentro de nós. Alice, a despeito de ser uma personagem, é real em muitos níveis: tem história, identidade, medos, ambições, fragilidades; ela é tão ou mais real que um sujeito histórico, de relevância social, como Dom Pedro II. Tão ou mais real, na medida em que ela está mais ou menos presente na história particular de cada um de nós. Dom Pedro II é um personagem que, como tantos outros, compõe a narrativa fantástica da formação do Brasil. Ouvimos dizer que Dom Pedro II foi real e os historiadores insistem em elencar fatos que comprovam sua existência. No entanto, ele é tão personagem quanto Alice no universo psíquico particular dos cidadãos comuns, que os conhecem apenas através dos livros. Tão personagens e tão reais, ao mesmo tempo.
O que nos interessa, nesse sentido, é que os personagens têm vidas autônomas e invadem as nossas histórias pessoais, servindo de exemplos, trazendo conselhos, promovendo identificações, fortalecendo valores... Para as crianças, Batman não é um herói fictício, mas um amigo, que lhes oferece a possibilidade de ir além, ultrapassando os desafios da vida real. É um amigo morcego que escolhe o lado certo para defender na luta cotidiana entre o bem e o mal, uma metáfora perfeita para as encruzilhadas constantes da vida.
Esses personagens só podem entrar no cotidiano das crianças (e por que não, dos adultos? Já que nós também adoramos histórias) através de uma arte antiga, que carrega a sabedoria da transmissão da cultura: a arte de contar histórias. E não pense, leitor, que esse é um ato simples de fazer as crianças se entreterem ou relaxarem, apenas. É um ato sagrado de permitir que a mente, a criatividade, a reflexão, a crítica, a capacidade de se colocar no lugar dos outros, sejam exercitados a partir da experiência fantástica de personagens que carregam o conhecimento acumulado de experiências de toda a humanidade.
E há uma diferença entre as histórias vistas nos filmes e as vivenciadas nos videogames daquelas narradas por contadores de histórias. As narrativas contadas parecem estimular ainda mais as fantasias e as elaborações das crianças, uma vez são como páginas em branco para serem preenchidas pela imaginação, exatamente como o estímulo de um livro ao adulto. E os contadores de história não se tratam apenas dos profissionais na arte, não. Contadores somos todos nós, pais, educadores, terapeutas, ou qualquer outra pessoa disposta a trazer consciência para a formação das crianças.
Por esse motivo, essas linhas deixam uma humilde mensagem aos milhares de contadores de histórias que existem por aí: permitam que a cultura sirva de apoio ao crescimento das crianças. Aproveitem o poder dos livros para oferecer a elas o mundo das fadas, do Papai Noel, dos heróis e vilões, o máximo que puderem. Saboreiem, junto com as crianças, a magia de ser e estar no mundo de formas diferentes, com possibilidades novas. Reflitam, ampliem seus pontos de vista, deixando-se afetar pela chance de inventar e dar forma a uma nova vida. Dessa maneira bonita, podemos costurar histórias de verdade, para onde a imaginação puder nos levar.